Olho por Olho

“Olho por Olho” é, definitivamente, um álbum apócrifo do Olho Seco. Não foi elaborado com esse intuito, mas certamente foi um “risco calculado”.

O Olho Seco já vinha alterando seu som desde a entrada do Luizão, tornando-o mais cru, mais cheio e mais veloz. Algumas poucas apresentações, a participação na coletânea “Contra Ataque” e o EP “Fome Nuclear” já atestavam isso. Entretanto, a saída do Fabião por questões pessoais e meu ingresso no baixo, transformando a banda em trio, o Luiz assumindo os vocais, e o Sartana encabeçando a condição de único membro da formação original da banda e livre para experimentar e tocar de forma absurdamente veloz, cristalizaram a condição de um Olho Seco sob suspeita. Eu e Luiz já vínhamos de um período com o Brigada do Ódio que gerou o split com o mesmo Olho Seco alguns anos antes, e tínhamos passado a experiência de registrar um som que praticamente ninguém se interessou naquele momento. Então, para nós, não seria problema lidar com isso novamente. Afinal, quais as possibilidades? Fazer um som ligado ao legado do Olho Seco do álbum “Botas, Fuzis e Capacetes”? Para nós, soaria como um pastiche, uma falsificação do original. Então optamos por buscar novos caminhos. Afinal, esse era o legado: buscar originalidade.

Obviamente o público não gostou. E entendemos que não gostariam mesmo. Acho que, especialmente no underground, é bem forte essa relação de pertencimento do público com a banda. As comparações com o Brigada do Ódio também foram inevitáveis, mas entendo que existem diferenças significativas, reconhecendo a grande proximidade. Enfim, foi uma busca por um som que traduzisse o momento e que, principalmente, nos deixasse satisfeitos. A experiência que trouxemos nos fez entender que seria fundamental um registro do que estávamos tocando. Fizemos uma breve gravação e utilizamos duas músicas que sobraram da gravação da coletânea “Contra Ataque” e bancamos 500 cópias do EP “Fome Nuclear”. Mas havia material suficiente para um LP.

O ano era 1989 e a Cogumelo se destacava como selo independente voltado para som mais extremo. Conversamos, liguei para a loja, falei com o João e marquei um papo pessoalmente para o sábado seguinte. Sexta à noite peguei um busão em SP, desci de manhã em BH, fui à loja, entreguei umas cópias do “Fome Nuclear”, conversamos cerca de uma hora, voltei para rodoviária e retornei a SP. Semana seguinte conversamos por telefone e já estava tudo agendado – data de estúdio, hotel e orientações para a arte. Com essas condições o álbum “Olho por Olho” nasceu. Ironicamente o álbum menos identificado com o Olho Seco é o primeiro álbum exclusivo da banda.

Enfim, pouco mais de três décadas após esse lançamento, temos essa edição em digipack. Posso dizer hoje que tenho muito orgulho de ter dividido com o Luiz e com o Sartana os percalços para esse registro, e dizer que o “Olho por Olho” não foi pensado acima nem além de julgamentos. Ele foi pensado ignorando as limitações criadas pela expectativa do que deveria ser e é o que é. Somente isso.

Foto: Nino Andrés

Wilson Alviano
25.06.2021

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